
© 2009 Duda Covett
A África sempre me encantou. Sem querer generalizar, é claro. Para mim, de norte a sul do continente, a África sempre foi cheia de encantos. Mouros, pigmeus, canibais, orixás, leões, desertos, pirâmides … mas o que mais me atrai é a África negra.
Recentemente fui fotografar um templo Iorubá no litoral sul de São Paulo a convite de uma amiga. Na ocasião, houve uma cerimônia com 300 pessoas, parecida com o que chamamos de batismo na igreja católica, e uma festa com muita música, dança e pessoas “batendo cabeça”, como dizem os praticantes dessa religião.

© 2009 Duda Covett
Fui tocado pelas palavras do sacerdote que conduziu a cerimônia. Ele deixou muito claro quais são as diferenças entre o Candomblé que se pratica no Brasil e o Iorubá. Confesso também que saí diversas vezes do meio da multidão para não ser dragado em transe pelos tambores, pelo canto e pela dança dos orixás.

© 2009 Duda Covett
Foi uma experiência incrível! Achei muito interessante a riqueza e simplicidade dos rituais, os arquétipos representados nos orixás, o respeito pelas forças naturais e o entendimento do bem e do mal, que fazem parte da natureza humana. Fiquei realmente surpreso pela devoção que presenciei por uma religião/cultura tão mal vista em nosso país.
Essa amiga que me convidou para fazer o ensaio fotográfico embarcou na semana passada para a Nigéria, dois dias antes do principal grupo rebelde daquele país anunciar que iria voltar com sua campanha de violência para ofuscar a entrega de armas feitas por rebeldes promovida por um programa de anistia do governo. Claro que fiquei preocupado.

Na semana anterior assisti ao documentário sobre o jovem cantor Emmanuel Jal, que foi treinado ainda criança pelo exército separatista do sul do Sudão e lutou com o seu AK-47 em 4 combates com apenas 10 anos. Atualmente ele vive na Inglaterra e canta a sua história para ajudar o seu país.
Por esses motivos, a “África” tem me acompanhado nestes últimos dias.

Hoje estive na casa de um amigo fotógrafo que fez um recente trabalho na Namíbia e, por acaso, me mostrou o livro Fifty Years of Portraits de Peter Beard. Fiquei muito curioso pelo seu trabalho de uma vida inteira dedicada à África e pela originalidade da sua obra e fui pesquisar mais sobre ele.
Veja o que ele diz na apresentação em seu site:
“When I first went to Kenya in August 1955, I could never have guessed what was going to happen. Kenya’s population was roughly five million, with about 100 tribes scattered throughout the endless “wild—deer—ness” – it was authentic, unspoiled, teeming with big game — so enormous it appeared inexhaustible.
Everyone agreed it was too big to be destroyed. Now Kenya’s population of over 30 million drains the country’s limited and diminishing resources at an amazing rate: surrounding, isolating, and relentlessly pressuring the last pockets of wildlife in denatured Africa.
The beautiful play period has come to an end. Millions of years of evolutionary processes have been destroyed in the blink of an eye.
The Pleistocene is paved over, cannibalism is swallowed up by commercialism, arrows become AK- 47s, colonialism is replaced by the power, the prestige and the corruption of the international aid industry. This is The End Of The Game over and over.
What could possibly be next? Density and stress — aid and AIDS, deep blue computers and Nintendo robots, heart disease and cancer, liposuction and rhinoplasty, digital pets and Tamaguchi toys deliver us into the brave new world.”
Não é preciso dizer mais nada. Você acredita em coincidência? O recado já foi dado, diversas vezes. Nós é que não prestamos atenção.
Hoje se fala em Oriente Médio … mas há muito tempo a África está cozinhando em fogo alto – vejam os exemplos de Nigéria, Quênia, Sudão, Congo e Etiópia – logo esse caldeirão irá ferver e, quando transbordar, todos nós ficaremos queimados.